Críticas de Arte de Oscar D'Ambrósio

Oscar D'Ambrósio é crítico de arte e curador  graduado em Jornalismo pela ECA-USP (1986) e em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade de Letras e Educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie (1986), especialização em Literatura Dramática pela ECA-USP (1989), mestrado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp (2004) e doutorado (2013) e pós-doutorado (2020) no Programa de Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor de diversos livros na área de arte naif e arte contemporânea. 

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O Olhar da Vida

Pintada com tinta acrílica sobre papel de 300 g (41 x 43 x 2 cm), “O Olhar da Vida”, de Aline Barroso, lida com uma das grandes metáforas da existência humana que está no olhar. Muito já se escreveu justamente sobre a capacidade da visão no sentido de estabelecer relações além das palavras entre as pessoas. Nesse aspecto, a imagem da artista traz um olhar associado a flores, representações do desabrochar da energia da vida, e à natureza. O fundo, amarelo, cor tradicionalmente associada ao sagrado e à espiritualidade, sugere que desvendar os mistérios do olhar significa mergulhar nos caminhos de nossa própria existência. Olhar a si mesmo e ver o outro, com as múltiplas diversidades dessas duas dimensões, constitui um enigma complexo em que as possibilidades se multiplicam. A prática do olhar, seja na arte ou na vida, não é exercício simples, mas continuamente desafiador.

Oscar D’Ambrosio

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Sublime Aurora

Realizada com tinta acrílica e aquarela sobre papel 300 g (40 x 52.5 x 2 cm), “Sublime Aurora”, de Aline Barroso, apresenta, como principal foco do olhar, levemente deslocado para a direita, graças ao uso de tonalidades quentes, uma figura que pode ser interpretada como anjo, alma ou borboleta sobre um fundo azul, que tanto evoca um céu como o universo. Essa chama que atravessa o espaço pode ser vista como o processo alegórico da criação artística, que talvez consista justamente em retirar da materialidade, seja de maneira figurativa ou abstrata, elementos que buscam a representação das essências do existir. De alguma maneira, cada artista, dentro de suas escolhas de estilo, composição, formas, cores e tonalidades, funciona como esse ser misterioso a navegar pelo espaço. Menos importante do que encontrar pontos de partida e de chegada, o processo constitui o que há de mais fascinante e enigmático, pois é indagador para quem cria e gera um resultado igualmente potente em perguntas que se multiplicam perante as leituras de cada observador.

Oscar D’Ambrosio

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Dois Olhares e Uma Conexão

A profundidade do olhar e a leveza do beija-flor caminham juntas na imagem “Dois Olhares e uma Conexão”, de Aline Barroso. Realizada com tinta acrílica sobre papel 300g (41, 5 x 53, 5 x 2 cm), lida com a expressividade dos olhares, associados geralmente com os espelhos da alma e a manifestação dos sentimentos essenciais para a vida. Esse diálogo de visões de mundo plurais proposto na obra se cristaliza com a presença de uma ave que reúne símbolos de amor, graça, alegria, cura, sorte e suavidade. Pelo fato de o colibri voar em qualquer direção e ser uma representação da leveza, é vinculado à possibilidade de transcendência. A sua força está na delicadeza, levando o néctar da vida de uma pessoa para outra no momento em que cada indivíduo se encanta com o seu voar pelo mundo da natureza e pelo nosso mundo interior. É nas conexões entre as pessoas, pelos olhares e pelo sentir, que a nossa humanidade se realiza.

Oscar D’Ambrosio

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Cabocla de Luz

O que é uma imagem artística? Como ela expressa uma atitude criativa? “Cabocla de Luz”, obra realizada com tinta acrílica sobre papel 300 g (tamanho A3), de Aline Barroso, coloca essas perguntas dentro de uma dimensão que valoriza os vínculos entre a cultura indígena e a natureza. Esses elos, que se manifestam das mais diversas formas, apontam para conexões de diversas ordens. Há, na obra, pelo menos, três dimensões que dialogam de maneira muito forte: o fundo verde e amarelo, relacionado, respectivamente, à natureza e à espiritualidade; a mulher, que representa, nas mais variadas culturas, a força da criação da vida; e os adornos, como pintura facial, penas e cocares, vinculados a símbolos de exaltação das conexões entre as diversas dimensões do existir. Nessa perspectiva, uma imagem artística pode ser uma interpretação do mundo; e a atitude criativa se manifesta nesse combinar de dizeres que aponta para novos, renovados luminosos e iluminados olhares a nos intrigar e desafiar sempre.

Oscar D’Ambrosio